Para os criativos da lã do Nepal, estabelecer todas as ligações certas é fundamental

Cuidar do rebanho, fortalecer a marca e expandir o mercado: os produtores de pashmina do Nepal pensam em grande

Nos planaltos dos Himalaias, qual é o valor das cabras guardadas pelos habitantes das montanhas em áreas remotas?

A resposta é evidente: depende. Para aqueles que guardam rebanhos das penugentas cabras-monteses dos Himalaias, costuma ser a carne, que podem consumir ou vender sem dificuldades.

Mas os produtores de pashmina de Katmandu esperam quebrar esta convenção convencendo os pastores do Nepal de que a lã que as suas cabras em liberdade produzem é preciosa e lucrativa. Esperam ainda desenvolver novas vias para que essa lã chegue aos centros de transformação urbanos e, em última análise, às cabeças, pescoços e ombros de pessoas de todo o mundo.

Vijoy Dugar, Vice-Presidente da Associação das Indústrias de Pashmina do Nepal, afirma: “As áreas dos Himalaias onde estes criadores vivem são tão remotas que no passado levava uma semana a alcançá-las. Mas agora contam com melhores ligações, por estrada, e já se compra lã a cooperativas recém-formadas para transformar em Katmandu”.

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CRIAÇÃO DA MARCA

Uma parceria recente entre o Governo do Nepal, o Quadro Integrado Reforçado (QIR) e o Centro de Comércio Internacional (CCI) estabeleceu os alicerces para estes esforços em curso, orientados para a promoção de peças de pashmina produzidas no Nepal.

Apercebendo-se de que a “pashmina” fora do país tinha passado a ter a conotação de um xaile barato, a Associação das Indústrias de Pashmina do Nepal, em conjunto com o CCI, desenvolveu esforços para criar uma marca forte, Chyangra Pashmina, que refletisse a utilização de lã da mais alta qualidade, bem como proteções sociais e ambientais. A marca é agora comercializada em 47 países.

Matthias Knappe, do CCI, afirma: “Prestámos apoio elaborando uma estratégia para a melhor forma de comercializar a marca registada, com uma definição específica do significado de Chyangra Pashmina. A Associação das Indústrias de Pashmina do Nepal queria algo que aproveitasse o antigo legado, a antiga glória associada ao termo “pashmina” como algo de qualidade, mas distinguindo-o claramente de quaisquer perceções negativas da pashmina que existiam no mercado”.

Conforme acrescenta, “Chyangra é o nome local das cabras dos Himalaias e pashmina refere-se ao produto de caxemira proveniente do Nepal”.

Na sequência da estratégia de revitalização e promoção da marca, 26 empresas registaram um aumento de 16% das exportações e 28 empresas angariaram um total de 425 novos clientes.

Os produtos Chyangra Pashmina são agora exportados para 80 países e a Associação das Indústrias de Pashmina do Nepal continua a procurar novos clientes, especialmente mercados que dão prioridade aos produtos de luxo. O país visa aumentar o valor de exportação da Chyangra Pashmina em 67% até 2020, de acordo com um Estudo de 2016 sobre a integração do comércio do país apoiado pelo QIR.

ACOMPANHAR A MODA

As pashminas constituem o terceiro bem de exportação do Nepal e os produtores locais são altamente dependentes do mercado de exportação. Além de reforçar a marca Chyangra Pashmina, o projeto pretendia diversificar os elementos de exportação, acrescentando outros produtos ao habitual xaile.

“Antes vendíamos apenas trapos, ao passo que agora produzimos várias peças de vestuário e passámos de apenas tecido para malhas. Cerca de um quarto das exportações são de malhas, todas elas peças de malha de luxo produzidas em Katmandu”, declara Vijoy Dugar.

Com a criação tanto de peças tecidas, como xailes e lenços, como de produtos de malha, como casacos, a indústria está a esforçar-se não somente para se adaptar à procura global, mas também para impulsioná-la. Uma das estratégias seguidas é a de formar estudantes no trabalho da lã, produto crucial para o país.

“No Nepal, especialmente em Katmandu, não há muitas instituições que trabalhem no design de têxteis. Trabalhámos com uma das escolas de design estabelecidas e iniciámos cursos dedicados ao design e produção de pashmina, contando hoje com cerca de 60 a 70 estudantes”, afirma Vijoy Dugar.

Na sequência do primeiro curso de caxemira de sempre do país, que incidiu sobre a forma de utilizá-la e de criar designs, os estudantes organizaram uma exposição de moda para apresentar as suas criações. Esta iniciativa na educação deu origem a um caminho único que visa assegurar que a pashmina se adapta aos seus clientes globais e amplia o seu alcance.

E formar jovens designers para inovarem numa das principais áreas de exportação do Nepal significa criar uma sólida base para o comércio futuro.

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DIAMANTE EM BRUTO

Uma questão que o projeto identificou como importante reside no fortalecimento das ligações entre aqueles que pastoreiam as cabras dos Himalaias e aqueles que transformam a sua lã em peças de vestuário. Criar essas redes constitui o próximo passo para a Chyangra Pashmina e os seus apoiantes.

Como refere Matthias Knappe, “o objetivo consiste em ligar os criadores aos compradores em Katmandu. Neste momento, os criadores de cabras chyangra vendem as suas fibras maioritariamente a comerciantes tibetanos e chineses porque estão mais próximos e porque provavelmente falam a mesma língua, por oposição aos nepaleses que vêm de Katmandu. E, em termos logísticos, é muito mais fácil fazer negócio com eles”. 

“Mas”, conforme acrescenta, “não é o ideal, numa perspetiva nacional, que a matéria-prima saia do país e depois regresse sob a forma de fios”.

A subcamada de lã das cabras chyangra é designada por “fibra de diamante” e quando é cuidadosamente recolhida da cabra com um pente e fiada à mão para se transformar em caxemira é uma das melhores do mundo. Mas, resumidamente, nas condições atuais não existe oferta suficiente no Nepal diretamente a partir das cabras dos Himalaias para satisfazer a procura de pashmina do mundo.

Conforme afirma Vijoy Dugar, “a raça da cabra deteriorou-se nos últimos 100 anos, já que o valor da lã não era muito atrativo para os criadores em comparação com o valor da carne. Os criadores das cabras cruzavam-nas com outros animais para se tornarem maiores e fornecerem mais carne. Agora já têm noção de que poderiam obter bons preços também pela lã”.

Como resultado do fortalecimento da marca Chyangra Pashmina nos mercados locais e internacionais e de uma atenção renovada ao comércio da pashmina através das recentes parcerias do QIR, espera-se que as preocupações passem a centrar-se no que os criadores e os seus rebanhos necessitam para alcançar o sucesso.

Com uma cadeia de abastecimento melhorada desde a cabra ao criador e até ao produtor de Katmandu, aqueles que vivem nas altitudes mais elevadas poderão usufruir de mais benefícios ainda decorrentes dos seus rebanhos. Por outro lado, um forte mercado de exportação do Nepal poderá ter ainda mais a oferecer ao mundo sob a forma de requintados produtos de caxemira provenientes diretamente da fonte.

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KEYWORDS: International Trade Centre (ITC) pashmina chyangra

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